MARÍTIMA (2010-2011)

RELEASE: Primeiro álbum autoproduzido pela maranhense de Caxias, crescida em São Luís, e que se tornou artista na França em 2005. Em Marítima, Alliye decidiu navegar sozinha. Porque ela tem uma forma benéfica e positiva de teimosia. Por trás de uma graciosidade delicada, existe um temperamento que não se rende, nem à métodos, nem à formatação. As dez faixas de Marítima nasceram da obstinação de criar um "som". Alliye juntou o evidente legado da música popular brasileira às excentricidades musicais extraídas do folclore multicor do Maranhão, território indígena, africano e europeu. Um todo combinado às influências transnacionais do modernismo digital.

"Marítima", composição da cantora que deu título ao álbum, toda produzida com violões, viola caipira, marimba, percussões de bumba-meu-boi e tambor de Mina, navega em direção ao Atlântico equatorial, à 2,3 graus de latitude sul. As águas do rio Amazonas acariciam soberbamente as margens do Estado do Maranhão. Ali pode-se praticar a cabotagem, à partir de São Luís, Alcântara, Cururupu, Belém, Macapá, com passagem direta sob a linha do Equador, exatamente sob o sol. Porém, "Marítima" vê além da linha do horizonte, uma visão que percorre um azul infinito e de repente repousa sobre os picos vulcânicos do Cabo Verde, por exemplo.

"Um Mar de Mar" foi composta pelo cabo-verdiano Mário Lúcio, grande navegador da esfera musical lusitana, africana, caribenha e Ministro da Cultura do arquipélago de Sael. O que canta Alliye com delicadeza é um entrelaçamento de trocadilhos da raiz "mar" (maria juana, marimba, maracujá, Maracatu, Marrakech, maripousa, Maranhão...). Com Mário Lúcio, cantor, escritor, pintor, ex-advogado formado em Cuba, Alliye compôs "Lua de Janeiro". Do Caribe, a jovem artista toma emprestado a leveza de um reggae-blues que ela chama de "Upaon Açu", o nome antigo de São Luís do Maranhão dado pelos índios Tupinambás, e quer dizer "Ilha Grande", referindo-se à ilha em que a cidade foi construída em 1612.

Em 2010, Alliye passou alguns meses no Brasil, esteve gravando no Rio de Janeiro e em São Luís. Nesta viagem, ela conheceu músicos e cantores, alguns como Flávia Bittencourt, com quem ela descobriu afinidades e compôs "Flor de Brasília". 

Mas onde há fumaça, há fogo: ao viver em Paris, Alliye volta no tempo através da História. São Luís foi fundada por um francês, Daniel de la Touche, senhor da Rivardière, que se aliou aos índios para resistir aos portugueses. Marítima é um álbum que constrói pontes. "Upaon-Açu", escrito em Português, também oferece uma estrofe em língua francesa. No álbum, Paris é homenageada em Português, ao ritmo de um samba o qual começa com bordões que lembram o Fado: "Paris-Velho Novo Mundo" é um retrato íntimo da cidade onde também rola um futebol. O esporte preferido do ídolo Chico Buarque, um aficionado da capital francesa ("Em Charletty, marca um gol Chico Buarque...") e onde um calor comparado ao do sertão nordestino predomina durante alguns dias de verão de uma cidade "deslumbrante" - incrível e maravilhosa.

O acordeon chegou ao Brasil pelos portugueses, e continua animando o tradicional São João e as demais festas nordestinas. É rústico e floresce como um mandacaru no xote "Fina Flor", composto por Alliye, que o interpreta com uma belíssima melancolia fadista. É também o instrumento que acompanhou as maravilhas de Edith Piaf. Em seu primeiro single, Alliye interpretou Septembre ("Setembro" - 2006) de Barbara, uma bela canção do patrimônio musical francês, aplaudida pela imprensa e pelo público. Em Marítima, ela interpreta uma música criada em 1960 para a cantora Edith Piaf, Cri du Coeur (grito do coração), com melodia de Henri Crolla e letra de Jacques Prévert ("Não é somente minha voz que canta/ É uma outra voz, uma multidão de vozes / Vozes de hoje ou do passado / Vozes engraçadas, ensolaradas / Desesperadas, maravilhadas, vozes desoladas e quebradas / Vozes sorridentes que se extasiam/ Loucas de amor e de alegria..."). Uma jóia rara.

Um outro amante de Paris, Márcio Faraco, foi cúmplice da artista na composição "Madrugada". Uma explosão de sensibilidade na noite que se esvai, com o tom muito "buarquiano" de uma cândida simplicidade: Robertinho Chinês ao bandolim e voz e violão de Alliye. E como nós aqui na França continuamos a ouvir as primeiras composições de Alliye aleatoriamente em uma ou outra rádio FM, sabemos que as melodias e voz delicada que ela carrega em si seguem, conquistando organicamente novos territórios.

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